II
Um relógio na parede bateu dez horas e um pobre bateu duas pancadas na porta da cozinha.
Foi a cozinheira Gertrudes quem abriu. Olhou o homem sem entusiasmo. Não o conhecia, mas nem era preciso perguntar-lhe quem era: era mais um pobre.
A cozinheira teve vontade de lhe dizer que ele vinha tarde demais. O jantar dera-lhe muito trabalho e ainda lhe faltava lavar a loiça e arrumar a cozinha. Mas ela tinha ordem de dar de comer a qualquer pobre que batesse à porta enquanto houvesse luz acesa na casa.
Por isso disse:
— Entre.
E acrescentou:
— Não suje o chão.
Pedido impossível de satisfazer. Os trapos encharcados do mendigo escorriam água. Poisados no chão de tijoleira, os seus pés descalços estavam molhados e cobertos de lama.
— Boa noite — disse o homem.
— Boa noite — respondeu Joana, a criada velha. Joana estava sentada junto ao lume. Tinha um xaile preto pelas costas e os seus olhos eram dum azul sem cor, como se o tempo os tivesse desbotado.
Gertrudes não respondeu às boas-noites. Olhava ostensivamente a água que escorria dos farrapos do mendigo.
— Venha secar-se aqui ao pé do lume — disse Joana. Irada, Gertrudes virou-se para a criada velha.
— Você não vê que ele me vai sujar a cozinha toda, que me vai encher o chão todo com pegadas de lama?
Depois voltou-se para o homem, apontou com o dedo o banco que estava em frente da mesa de pedra dos pobres e disse:
— O seu lugar é ali.
O homem dirigiu-se para o lugar que a cozinheira indicara. Cada um dos seus passos ia ficando desenhado no tijolo do chão.
Gertrudes poisou um olhar cauteloso nos talheres e nas travessas de prata que estavam amontoados na banca de pedra rosada. Depois, vendo que entre o mendigo e as pratas havia uma distância suficiente, disse:
— Sente-se.
O homem sentou-se e ela acrescentou:
— Vou aquecer-lhe a sopa.
Pegou num grosso panelão que estava posto de lado e colocou-o em cima do lume do fogão.
Em seguida cortou um pedaço de pão, encheu um copo com vinho e poisou o pão e o vinho defronte do homem.
Então ele disse:
— Preciso de falar com o Dono da Casa.
— A esmola é ao sábado — respondeu Gertrudes.
— Mas eu preciso de falar hoje com o Dono da Casa — tornou o homem.
— Hoje não é sábado. E além de não ser sábado é tarde. E além de ser tarde temos visitas. Hoje temos cá o Bispo e além do Bispo temos um senhor ainda mais importante do que o Bispo.
— Mas eu preciso de falar esta noite com o Dono da Casa. É importante.
— As coisas importantes são para as pessoas importantes — respondeu Gertrudes. — Tenha juízo, homem. Você quer que o Dono da Casa venha aqui, agora, falar consigo? Nem pense nisso!
Lá fora a tempestade parecia aumentar.
A porta que dava para o corredor abriu-se e entraram o criado e a criada de sala. O criado trazia uma bandeja com xícaras de café, a criada uma bandeja com copos.
— Boa noite — disse o homem.
— Boa noite — responderam eles.
Poisaram as bandejas e a cozinheira começou logo a lavar os copos.
— Bem — disse o criado, olhando o pobre —, temos muitas visitas hoje. Visitas na sala e visitas na cozinha.
O homem pôs-se em pé, avançou um passo para o criado e disse:
— Oiça…
— Não saia de onde está — atalhou a cozinheira. — Olhe que me suja a cozinha toda.
O homem ficou onde estava. Mas, voltado para o criado, continuou:
— Oiça se faz favor, oiça! Preciso de falar com o Dono da Casa. Vá à sala e peça-lhe que venha aqui.
— Eu já lhe disse — explicou Gertrudes ao criado — que hoje não é sábado e que temos visitas. Mas ele não compreende uma coisa tão simples.
— Homem — disse o criado, aproximando-se do pobre —, você já viu um senhor deixar as visitas na sala para vir à cozinha falar com um mendigo? Tenha paciência, não pode ser. O mundo é como é. Temos que ter paciência.
O homem voltou-se para a criada de sala e pediu:
— Oiça, peço-lhe a si: vá lá acima e diga ao Dono da Casa que preciso de falar com ele hoje mesmo.
— Tenho ordem de nunca ir dar recados à sala quando há visitas. Cada coisa tem o seu lugar.
Ao longe começava a trovejar.
Gertrudes tirou um prato do armário, mergulhou a concha no panelão, deitou a sopa no prato.
Depois aproximou-se da mesa dos pobres, poisou o prato e disse ao homem:
— Sente-se e coma.
O homem sentou-se com ar de cansaço, mas não começou a comer.
A porta do corredor tornou a abrir-se e entrou uma das criadas de quartos.
Vinha mal-humorada.
O homem disse:
— Boa noite.
Ela respondeu por cima dos ombros e perguntou à criada de mesa:
— Onde pôs você as chaves do armário da roupa?
— Ficaram no quarto de engomar — respondeu a outra criada.
A criada de quartos suspirou, sentou-se num banco e resmungou:
— A esta hora ainda me aparecem trabalhos.
— Então que há? — perguntou a cozinheira.
— Há que convidaram o hóspede novo, o Senhor Importantíssimo, para dormir cá. E a esta hora da noite ainda tenho de ir arranjar o quarto e fazer a cama.
— Deve realmente ser uma pessoa importante — comentou Gertrudes.
— Isso vê-se que é — disse a criada de mesa. — Quando fala parece dono de tudo.
— Oiça, se faz favor — disse o pobre, levantando-se e avançando um passo em direcção à criada de quartos.
Mas a cozinheira interrompeu-o outra vez.
— Fique onde está, não me suje mais a cozinha.
Depois voltou-se para a criada de quartos e tornou a explicar:
— Quer falar, hoje, agora, com o Dono da Casa. Já lhe expliquei que é impossível, mas não entende.
— Oiça! — disse o homem, virado para a criada de quartos. — Oiça o favor que lhe peço: vá você chamar o Dono da Casa.
— Sou criada dos quartos, não tenho ordem de ir à sala dar recados. Isso não é comigo.
A trovoada agora parecia estar perto. Um relâmpago azulou os vidros e o trovão ouviu-se para o lado da serra. Todos se benzeram.
— Ai dos pobres! — disse no seu lugar a velha Joana. — Há sempre uma razão para lhes dizerem que não. Os pobres têm fome e frio mas sobretudo estão sós. Se eu fosse nova ia lá acima pedir por ti. Mas estou velha e já não posso subir a escada.
— Se você lá fosse ninguém fazia caso — disse duramente Gertrudes.
E voltada para o homem continuou:
— Escusa de pedir mais. Já viu que ninguém o atende.
Um novo relâmpago mostrou lá fora o jardim lívido e transfigurado e logo um trovão se ouviu, estremecendo a casa desde os seus fundamentos.
A luz eléctrica apagou-se. Os criados benzeram-se na escuridão onde apenas brilhavam as brasas do lume.
Rapidamente Gertrudes riscou um fósforo e acendeu duas velas.
— Dê-me uma — disse o criado —, tenho de ir lá acima depressa acender os castiçais.
A cozinheira deu-lhe uma das velas e o criado saiu seguido pela criada de sala e pela criada de quartos.
Gertrudes tirou dum armário um castiçal pequeno onde espetou a vela. Depois colocou o castiçal em cima da grande mesa que estava no meio da cozinha.
A chuva batia desesperadamente nas vidraças. A trovoada era cada vez mais forte. A paisagem azul e fulminada surgia nas janelas e logo desaparecia bebida pela treva. O rolar dos trovões acordava a imensidão.
— Valha-nos Santa Bárbara! — disse a velha Joana. — Temos a trovoada em cima de nós.
Gertrudes abriu uma gaveta.
— Que quer você? — perguntou a velha.
— Vou queimar alecrim. Dizem que é bom — respondeu a cozinheira.
E tirou da gaveta um ramo seco que atirou para o lume. Mas de novo o clarão do relâmpago atravessou os vidros e de novo o trovão fez estremecer a casa.
— Vamos rezar a Magnífica — disse Joana.
— Reze você, que eu não sei: já não são coisas do meu tempo — respondeu Gertrudes.
Então através do bater da chuva e do rolar da tempestade ergueu-se do fundo da cozinha, velha, cansada e trémula a voz da Joana:
A minha alma engrandece ao Senhor.
O meu espírito alegra-se em extremo em Deus meu Salvador.
Pois Ele pôs os olhos na baixeza da sua escrava e de hoje em diante todas a gerações me chamarão bem-aventurada.
Porque me fez, grandes coisas o que é poderoso; e santo é o Seu Nome; E a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que O temem.
De súbito a Joana calou-se.
— Acabou? — perguntou Gertrudes.
— Não, não acabou; mas estou velha, esqueci o resto. Porém, do outro canto da cozinha, a voz do homem sentado à mesa dos pobres ergueu-se e continuou:
Ele manifestou o poder do seu braço e dissipou os que no fundo do seu coração formavam altivos pensamentos.
Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes.
Encheu de bens os que tinham fome e despediu vazios os que eram ricos.
João, o filho do Dono da Casa, estava no corredor quando a luz se apagou. Tinha acabado de dar as boas-noites a todos na sala e ia para o seu quarto.
Ficou sozinho na escuridão cortada de relâmpagos. Encostado à parede via lá fora surgir da treva um jardim azulado, desconhecido e fantástico. A beleza, o abismo e o clamor da tempestade tinham-no suspenso. Escutou imóvel durante algum tempo. Depois começou a ter medo. Sentiu-se só no meio da tempestade. Quis correr para a sala mas lembrou-se da sombra enorme do hóspede. Então o seu medo cresceu. Não ousava ir, em plena escuridão, ao encontro do convidado desconhecido. Encostou-se mais à parede e gritou. No fundo do corredor apareceu uma luz.
Era o criado António com as velas e as duas criadas. João correu para eles e seguiu-os.
Os criados entraram para a copa que ficava ao lado da sala de jantar.
António acendeu dois grandes castiçais e disse:
— Não me lembro de uma trovoada como esta.
— E eu nem me lembro de um pobre pedinte a querer que o Dono da Casa o venha ver à cozinha — disse a criada de sala.
— O que é que foi? — perguntou João.
— É um pobre que está na cozinha e quer que chamem o seu pai para falar com ele.
— E por que é que não o chamaram?
— Porque tudo tem o seu lugar e a sua ocasião.
— Como é que ele é?
— É como os outros pobres, é como a gente de Varzim.
— Dá-me uma vela — disse João —, eu quero ir vê-lo.
A criada deu-lhe um castiçal com uma vela e João saiu. Quando abriu a porta da cozinha, viu, sentado à mesa dos pobres, um homem de rosto jovem e cansado. Era igual à gente de Varzim, tal como dissera Júlia, a criada de sala. Pareceu a João que o conhecia há muito tempo.
Erguendo a vela, caminhou para o homem e, quando chegou junto dele, disse baixo e devagar:
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu o homem.
Houve um momento de silêncio. A trovoada parecia ter-se afastado e acabara de chover.
— Acabou a trovoada — disse a criança.
— Acabou.
— És tu o homem que mandou chamar o meu pai?
— Sou eu.
— Queres ver o meu pai?
— Quero que o teu pai me veja.
— Como é que te chamas?
— Diz ao teu pai que venho da parte do Padre de Varzim.
De novo João olhou o homem em silêncio. Ergueu um pouco a vela para o ver melhor. Disse:
— Vou chamar o meu pai.
Quando o João chegou ao alto da escada a luz eléctrica acendeu-se de repente. O rapazinho soprou a vela, pousou o castiçal numa mesa e dirigiu-se para a sala.
Entrou e ergueu os olhos: a sombra do Senhor Importante continuava a trepar pelas paredes e a ocupar todo o tecto. Dir-se-ia que ela dominava inteiramente aquela reunião de pessoas.
E ao canto do fogão, gozando o doce calor da cepa da vinha, o dono da sombra desmedida conversava com o Bispo e com o Dono da Casa.
— Pai — disse João —, na cozinha está um pobre que quer falar consigo.
— Agora, não. Diz-lhe que venha no sábado.
— Mas tem que ser hoje. É muito importante.
— Por que é que é importante?
João não sabia responder.
— Por que não o vai ver? — perguntou o Bispo ao Dono da Casa. — Um pobre vem sempre da parte de Deus.
— O homem que está lá em baixo — explicou João — diz que vem da parte do Padre de Varzim.
O Dono da Casa ficou rubro. Fitou o filho e disse, pronunciando claramente e secamente as palavras:
— Diz-lhe que o Padre de Varzim já sabe que só recebo os pobres ao sábado. O homem que venha no sábado.
— Pai — tornou a pedir João — venha vê-lo agora.
— Não — respondeu o Dono da Casa. João saiu da sala e voltou à cozinha. Durante um momento fitou o pobre em silêncio.
A chuva tinha cessado. Só se ouvia o barulho de Gertrudes a lavar panelas. Joana no canto fitava o lume com o olhar ausente e desbotado.
Por fim João disse:
— O meu pai não quis vir. Eu pedi, mas ele não quis vir.
— Obrigado — disse o homem.
— Quando te torno a ver? — perguntou João.
— Vem ver-me a Varzim — respondeu o homem. Depois levantou-se, deu as boas-noites e saiu. João viu-o desaparecer na escuridão, enquanto pela porta aberta entrava um perfume verde de jardim molhado.
Gertrudes aproximou-se da mesa dos pobres para levantar o copo, o talher e o prato.
— Olhem — exclamou ela —, o homem não tocou na comida!
— Ah! — disse a velha Joana, levantando a cabeça como se acordasse de repente —, também Deus não recebeu as ofertas de Caim.
— Que história é essa? — perguntou a cozinheira.
— É uma história do princípio do Mundo — disse a velha. — É a história dos filhos de Adão e Eva. Chamavam-se Caim e Abel. E Caim matou Abel, seu irmão.
Sophia de Mello Andresen
Contos exemplares
Porto, Figueirinhas, 1997
Segue: O jantar do bispo III