III
Meia hora depois o Bispo, dentro do seu automóvel, rolava na estrada. Ia triste e com a alma pesada. Pensava no Abade de Varzim.
O Dono da Casa e o Homem Importante tinham-no entontecido com as suas boas maneiras e os seus argumentos lógicos. Ele estava velho. Já não tinha inteligência nem força para lutar. Estava cansado do mundo. Os seus amigos eram os seus inimigos; e os seus inimigos eram mais fortes do que ele. A sua mente estava obscurecida. Sentia-se só entre os homens e Deus parecia-lhe infinitamente oculto e velado. E a estrada que os faróis arrancavam das trevas, desolada entre fileiras de árvores despidas, coberta de lama, despojada pelo Inverno, escurecida pela noite, pareceu-lhe a própria imagem da sua alma.
O carro saiu das curvas da serra e entrou numa recta.
Ao longe os faróis iluminaram um vulto que seguia pela beira da estrada. O vulto dum homem que caminhava sozinho.
Quando o carro passou junto dele, o Bispo disse ao chauffeur:
— Pare. — Vamos levar este homem.
O Bispo abriu o vidro e chamou o mendigo:
— Para onde vais?
O homem aproximou-se e respondeu:
— Vou para casa do Padre de Varzim.
— Ah! Vens da Casa Grande?
— Venho.
— És o homem que pediu para falar ao Dono da Casa?
— Sou.
O Bispo olhou-o. Era um homem igual a muitos outros. Lembrava a gente de Varzim. Tinha lama nos trapos e a escrita da fome na cara. Nas mãos havia um gesto de paciência. Um gesto muito antigo de paciência. E de repente pareceu ao velho Bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente.
Por isso o Bispo baixou a cabeça enquanto dizia:
— Varzim é longe e o caminho para lá é difícil. O chão está transformado em lama e a enxurrada encheu de pedregulhos os carreiros da serra. Vem comigo e fica esta noite em minha casa.
O mendigo não respondeu.
O Bispo levantou a cabeça, mas na sua frente viu só a noite.
— Homem, onde estás? — chamou ele. Mas ninguém respondeu.
Então o velho prelado saiu do seu carro. Olhou e escutou: na estrada e nos campos não avistou nenhum vulto. Nem ouviu o menor barulho de passos. Mandou ao chauffeur que procurasse o mendigo. Mas o chauffeur também não o encontrou. Os pés do Bispo estavam agora enterrados na lama. A Lua surgiu entre as nuvens. Mas o luar mostrava apenas um descampado vazio, onde ninguém se afastava. O silêncio estava atento e suspenso.
O Bispo tapou a cara com as mãos. Agora tentava reconhecer dentro de si mesmo o homem que encontrara. Assim esteve algum tempo. Depois destapou a cara e murmurou:
— Aquilo que eu fiz tem de ser desfeito.
Subiu outra vez para dentro do carro e disse ao chauffeur:
— Temos de voltar para trás.
Quando chegaram à Casa Grande as luzes ainda estavam acesas. Mas o barulho do «claxon» ao portão, àquela hora, causou grande alvoroço.
Um criado desceu a correr a escada e veio abrir. A chave deu penosamente a volta na fechadura e as portas de ferro gemeram nos seus gonzos. O automóvel do Bispo entrou, atravessou o pátio e veio parar em frente das escadas de pedra.
Curiosa de saber quem seria aquela visita do meio da noite, a Dona da Casa espreitou entre as cortinas através do vidro.
— É outra vez o Bispo! — exclamou ela, espantada. E foi prevenir o marido.
Trôpego, trôpego, o velho Bispo subia a escada. Subia com pesados passos, costas curvadas e a mão trémula apoiada ao corrimão de pedra e musgo. Trazia os sapatos sujos de lama.
Quando chegou ao cimo, o marido e a mulher já o esperavam na entrada.
O brilho da noite fazia luzir os azulejos azuis.
— Preciso de lhe falar — disse o Bispo ao Dono da Casa.
— Está frio aqui. E melhor entrar para a sala.
Na sala as cadeiras pareciam tesas e espantadas e o brilho da hora tardia boiava nos espelhos subitamente acordados pela luz. O Bispo não se quis sentar e ficou de pé junto duma mesa.
— Não vale a pena sentar-me, não me demoro, o que tenho a dizer diz-se depressa.
Mas não sabia como começar.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou o Dono da Casa.
— Aconteceu.
Houve um novo silêncio. Depois, devagar, o Bispo disse:
— Não sei contar o que vi. Hoje, esta noite, foi acusado um homem justo. Mas o próprio Deus veio ser sua testemunha.
— Não compreendo — disse o Dono da Casa.
— Hoje, aqui, o padre novo de Varzim foi acusado.
— E Deus desceu do céu para testemunhar por ele?
— É verdade.
— Desculpe, senhor Bispo, desculpe que eu não posso acreditar.
O Bispo olhou o Dono da Casa, o dono dos quadros, das pratas, dos campos, das vinhas, dos pinhais e da serra. E viu que era como se todas as coisas que aquele homem possuía tivessem formado à roda dele um espesso muro que o separava da realidade. Ele estava fechado na certeza dos seus direitos.
E, com tristeza, o Bispo respondeu:
— Eu sei que não pode acreditar.
Depois, devagar, continuou:
— O padre de Varzim não foi só acusado. Foi também vendido. Vendido pelo telhado de uma igreja. Da Igreja da Senhora da Esperança.
O Dono da Casa quase não acreditou nas palavras que ouvia. Pois ele não tinha nenhuma intenção de se confessar. Era mesmo como se ele tivesse perdido ou rejeitado há muito tempo a possibilidade de se reconhecer a si próprio. Por isso respondeu seco, dominando a sua cólera:
— Não compreendo porque é que disse vendido. Não houve nenhuma venda. Dei uma esmola e fiz, de acordo com a minha consciência, um pedido.
— Mas eu — respondeu o Bispo, confessando-se amargamente — prometi mudar para outro lugar o padre novo. Fiz uma promessa e recebi dinheiro. Não posso cumprir a promessa e quero entregar a quem mo deu este dinheiro.
E a mão enrugada poisou os dois cheques em cima da mesa.
O Dono da Casa olhou o gesto com um misto de furor, espanto e indignação. O Bispo, aquele prelado tão polido, estava a trair as regras do jogo. Às regras da boa educação respondia com problemas de consciência. Acusava-o a ele, Dono da Casa, de fazer negócios inconfessáveis e confusos. Acusava-o em palavras claras, inconfundíveis. Nem ao menos se exprimia indirectamente e por meio de alusões. E, no fundo da sua alma, o Dono da Casa teve grande vontade de receber o dinheiro e de dar ao Bispo uma resposta crua. Mas lembrou-se que não convinha ter questões com o Bispo, lembrou-se da sua fama, da sua reputação e da boa educação que tinha recebido em pequeno. Por isso conteve-se e disse com alguma pompa:
— Não compreendo. O dinheiro que dei não tem nada a ver com o Padre de Varzim. São duas questões completamente diferentes. Vossa Excelência Reverendíssima está a fazer uma confusão lamentável. Dei uma esmola e nunca torno a receber o que dou. Mas este assunto não pode ser resolvid o só por nós os dois. É preciso sabermos qual é a opinião do meu hóspede.
O Dono da Casa tocou pelo criado e mandou-o chamar o Homem Importante.
Mas o criado António percorreu em vão a casa. O Homem Importante, o hóspede imprevisto da noite, tinha desaparecido. Não estava nem no quarto nem nas salas, nem nas escadas, nem nos corredores. O seu carro e o seu chauffeur tinham-se volatilizado, e até o sulco das rodas do seu carro se tinha apagado no saibro molhado do pátio.
Estas notícias perturbaram o Dono da Casa. Deixou a mulher na sala a fazer companhia ao Bispo e foi ele próprio, à frente dos criados, passar uma revista à casa e aos jardins. Subiram ao sótão, desceram à cave, espreitaram no poço, António espreitou atrás das cortinas; Mariana, a criada de quartos, espreitou debaixo da cama. O Dono da Casa espreitou atrás dos arbustos. Mas o desaparecido não apareceu.
Terminada a busca, o Bispo, o Dono e a Dona da Casa, o criado António, Júlia, a criada da sala, e Mariana, a criada dos quartos, reunidos pelo espanto, formaram um círculo na sala, comentando o sucedido. O Dono da Casa pediu ao Bispo que lhe desculpasse a estranheza da situação. Não havia explicação possível. Instalara-se no ar um pesado mal-estar. A Dona da Casa estremecia quando as madeiras estalavam e, lá fora, as sombras do jardim tinham tomado um ar suspeito.
Finalmente, falou o Bispo:
— É tarde. Amanhã pensaremos melhor. O seu hóspede vai com certeza aparecer ou dar alguma notícia. Vou-me retirar. Deixo-lhe aqui os dois cheques.
Mas quando olharam para a mesa só viram um cheque. Era o do Dono da Casa. O outro, o cheque do Homem Importante, tinha desaparecido.
Os presentes olharam-se transtornados. Mãos e olhares percorreram nervosamente a sala à procura do pequeno papel.
— Vê debaixo da mesa — disse a Dona da Casa ao criado.
António pôs-se de gatas e mergulhou de baixo da colcha de seda vermelha que cobria a mesa. Passado um instante, no gesto dum fotógrafo antigo retirando a cabeça dos panos da sua máquina, reapareceu e disse:
— Não está.
— Era nominal ou ao portador? — perguntou o Dono da Casa ao Bispo.
— Não sei, não olhei — confessou o Bispo, atrapalhado. A confusão aumentava.
— Tenho de prevenir o banco — disse o Dono da Casa. — Vossa Excelência Reverendíssima viu que banco era?
— Não, não vi.
A complicação crescia.
Mas o Bispo estava agora muito cansado dos negócios do mundo.
— Vou deixar o assunto nas suas mãos — disse ele ao Dono da Casa. — A noite há-de trazer conselho. E o dia de amanhã deve trazer algum esclarecimento. Vou-me retirar.
Tornou a despedir-se e saiu.
Depois da saída do Bispo, o Dono da Casa pôs os criados à procura do cheque. Levantaram-se os tapetes, as almofadas dos sofás , as revistas que estavam em cima da mesa. Mas, ao fim de meia-hora, o cheque ainda não tinha aparecido.
Finalmente, o patrão disse aos criados:
— Vou-me deitar. Continuem a procurar; o cheque não pode ter desaparecido. Boa noite.
Saiu, e António, Júlia e Mariana olharam-se com desânimo.
— Fiquem vocês à procura aqui, eu vou procurar nos corredores. Talvez o cheque tenha voado com as correntes de ar — disse o criado António.
— Ou talvez o diabo o tenha levado! — disse a criada Júlia.
António deitou um olhar sem esperança ao chão dos corredores e dirigiu-se à cozinha para desabafar com Gertrudes.
— Mas, afinal — perguntou a cozinheira —, quem era este senhor, tão importante?
— Não sei — respondeu o criado —, só sei que parece que entrou o demónio nesta casa.
— Quem sabe! — disse a velha Joana, pondo no lume o seu olhar cansado. — Quem sabe! Talvez ele fosse realmente o Diabo! Nos tempos que correm pode bem ser.
— Nos tempos que correm — disse a cozinheira — já não há Deus nem Diabo. Há só pobres e ricos. E salve-se quem puder.
E, pegando num pano, Gertrudes limpou no chão de tijolo as pegadas do mendigo.
Sophia de Mello Andresen
Contos exemplares
Porto, Figueirinhas, 1997