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As cores do Outono

As cores do Outono

No Outono, como se regidas por um misterioso maestro, as folhas despem-se do verde que lhes é comum e tomam em prestadas as cores do sol.

O universo é cheio de segredos. No entanto, ao longo dos séculos Deus foi iluminando certos homens para desvendarem os arcanos da Criação. Por exemplo, Arquimedes e Leibniz fizeram-no no campo nas ciências exactas; Hipócrates e Andreas Vesalius na medicina; e Aristóteles e São Tomás de Aquino na filosofia. As suas descobertas, e as de muitos outros, passaram para o património dos conhecimentos humanos, e hoje tanto jovens como adultos podem beneficiar-se dessa ciência nas diversas instituições de ensino disseminadas pelo mundo afora.

É bom ter presente, porém, que nem todos os ensinamentos se adquirem na escola ou na universidade; muitos deles, assaz úteis tanto para o intelecto quanto para a alma, estão postos ao alcance da nossa vista, e mesmo das nossas mãos.

Assim, ao contemplar a imensidão do oceano, podemos ter uma noção profunda a respeito da grandeza, como muitos tratados filosóficos não são capazes de dar. O cachorrinho que continua a seguir o seu dono empobrecido, mesmo quando a comida não é abundante e o trato é pouco bondoso, pode falar-nos de fidelidade melhor do que muitos escritos bem alinhavados. Para não irmos mais longe, lembremos os insuperáveis exemplos do labor da formiga, da mansidão do cordeiro e da astúcia da raposa.

Contudo, vale a pena dar uma vista de olhos também no reino vegetal.

As plantas obedecem ao ciclo das estações. Ao despontar da Primavera, os galhos das árvores cobrem-se de uma miríade de tenros e pequeninos pontos verdes, os quais de início surgem modestamente, mas, passados alguns dias, crescem com espantosa rapidez numa explosão de vida que o rigor do Inverno parecia ter sobrepujado.

As macias folhas primaveris estão, por assim dizer, na sua infância. Entretanto, o calor do Verão traz-lhes logo cores mais densas, elas tornam-se mais rígidas e o seu tamanho chega ao auge: atingem a sua maturidade. Agora exuberantes, elas, contudo, não descansam, na sua incessante tarefa de proporcionar ar e luz para a árvore que as gerou. Poderiam olhar com certo orgulho para os suculentos frutos pendentes dos ramos, pois esses doces elementos são, em parte, resultantes do seu trabalho.

Mas seguem-se as semanas. A colheita já foi feita. Um discreto vento frio começa a soprar… As folhas talvez percebam que a sua missão está encerrada, e pouco tempo lhes resta de vida. A árvore da qual todas nasceram começa a recolher a sua seiva, e o pedúnculo que prende cada uma delas ao galho torna-se aos poucos mais ressequido e quebradiço.

É o momento delas darem o seu derradeiro lance. Como se regidas por um misterioso maestro, todas as folhas, quase ao mesmo tempo e numa mágica sinfonia, despem-se do verde comum a todas elas e tomam emprestadas as cores do sol… Disputando entre si numa maravilhosa competição de beleza, umas vestem um amarelo radiante, outras um laranja incomparável, outras tingem-se ainda de um vermelho mais vivo que o sangue. Mesmo depois de terem sido arrancadas impiedosamente dos galhos, pelo vento, e atiradas ao chão, elas continuam por mais algum tempo a exibir as suas cores fascinantes, num encantador mosaico que cobre o solo.

Na hora de se despedirem da vida, tornam-se mais belas do que jamais o foram em toda a sua existência. Em vez de trazer melancolia, o seu adeus inspira-nos uma alegre aceitação das regras simples e naturais, inerentes ao ciclo da existência nesta terra.

O singelo exemplo das folhas fala por si. Se as pobrezinhas chegam aos seus últimos dias com tanta “nobreza”, porque não haveremos nós, homens, de fazer o mesmo?

Deus deu a cada ser humano uma alma imortal. Assim, muito se engana quem imagina que, quando passam a pesar sobre os ombros de uma pessoa os anos e os incómodos da velhice, a vida já não tem para ela encanto nem razão de ser.

Sem dúvida, o físico decai, mas o espírito pode e deve buscar um contínuo aperfeiçoamento; e alguém que com sinceridade de coração almeja a verdade e o bem, no entardecer da vida poderá com despretensão oferecer aos seus irmãos e semelhantes a generosa dádiva das virtudes, do bom exemplo e da experiência, cuja beleza sobrenatural supera em brilho as cores de todos os Outonos…

 

Carlos Toniolo

O dragão azul e o dragão amarelo

No país do sol nascente, pelo vigésimo aniversário da sua coroação, o imperador resolveu decorar a sala do trono do palácio com o mais belo biombo que alguma vez se vira.

Convocou o pintor mais célebre do império que vivia numa gruta longe da cidade.

O artista dirigiu-se imediatamente à corte e o imperador deu-lhe a conhecer o seu propósito: no biombo da sala do trono deviam figurar dois dragões, um azul e outro amarelo, para simbolizarem o poder do Império e a paz que tinha caracterizado o seu tempo de reinado. O pintor fez uma vénia e respondeu que pintaria dois dragões em seda preta, mas com uma condição: para o biombo ser tão belo como era vontade do imperador, precisava de um tecido de seda, mas a seda teria de ser mais fina do que todas as sedas alguma vez tecidas.

— Vou retirar-me para a minha gruta — acrescentou o pintor — até que a seda seja tecida; assim terei tempo de me preparar para fazer a pintura dos dragões.

Em seguida, o pintor abandonou a corte e regressou à sua gruta, começando logo a trabalhar.

O imperador ordenou que começassem imediatamente a fabricar a mais fina das sedas que alguma se vira.

Mas o fabrico foi muito mais difícil do que o imperador imaginara.

Primeiro, foi preciso escolher meticulosamente os bichos-da-seda, porque os que até então tinham sido criados não podiam secretar uma seda assim tão fina como a que o pintor pedira.

Os bichos-da-seda, tão cuidadosamente escolhidos, exigiam uma alimentação particularmente delicada, e as folhas da amoreira com que eram alimentados deviam ser seleccionadas com o máximo cuidado.

Apesar de todas as precauções, apenas alguns dos casulos sobreviveram.

Muito tempo decorreu até se conseguir um número suficiente de casulos para obter a quantidade de seda necessária para o biombo do imperador.

Mas, naquele momento, surgiu uma nova dificuldade: a seda era tão fina, que muito poucos tecelões se mostravam capazes de a tecer. Foi preciso apelar aos melhores artesãos do império.

Por fim, ultrapassou-se esta dificuldade e a seda destinada ao biombo acabou por ser tecida. Não havia memória de uma seda tão fina. O imperador ordenou que fosse pregada numa moldura de marfim.

Concluído o trabalho, o imperador enviou um mensageiro avisar o pintor de que a seda estava tecida e de que devia sem demora pintar os dragões.

O pintor pediu ao mensageiro que dissesse ao imperador que ainda não tinha acabado de preparar o seu trabalho e pedia-lhe que esperasse.

O imperador, que já tinha esperado muito tempo até ser tecida a seda, não escondeu a sua decepção, mas lá acabou por compreender que o pintor queria preparar uma obra-prima, e esperou. Contudo, sempre que passava diante do biombo, perdia a paciência.

Um dia, não aguentando mais, enviou um mensageiro para lembrar ao pintor a sua promessa. Este mandou dizer que, para aceder ao pedido do imperador, ainda não seria capaz de pintar dragões dignos do mais belo biombo algum dia visto. Precisava, dizia ele, de continuar com os seus ensaios e pediu um novo prazo.

O imperador, apesar da impaciência, não teve outro remédio senão esperar. Mas o tempo ia passando e o pintor não dava sinais de vida. E, sempre que o imperador passava diante do biombo inacabado, sentia crescer a sua irritação.

Um dia, no limite da paciência, enviou um mensageiro, ordenando-lhe que trouxesse o pintor à corte, a bem ou a mal.

O pintor aceitou finalmente acompanhar o mensageiro.

Quando chegou diante do imperador, disse-lhe que já se sentia capaz de pintar os dragões. O imperador manifestou a sua alegria.

O artista mandou que lhe trouxessem tinta amarela, tinta azul e dois grandes pincéis, e aproximou-se do biombo.

De uma pincelada, fez um traço amarelo; depois, outra pincelada, e fez um traço azul.

Em seguida, pousou os pincéis e declarou que o trabalho estava concluído.

Mal soube da notícia, o imperador, feliz por pensar que o mais belo biombo alguma vez visto iria finalmente ornamentar a sala do trono, precipitou-se para admirar a obra de tão célebre pintor.

Quando chegou diante do biombo, nem acreditava no que os seus olhos viam: apenas dois traços grossos, um azul e outro amarelo.

Convencido de que o pintor tinha querido troçar dele, ficou furioso. Com toda a calma e um ar muito sério, o pintor disse que aqueles dois traços eram fruto de longos estudos levados a cabo durante anos e anos.

Em seguida, fez uma vénia e quis retirar-se. Mas o imperador, fora de si e sempre convicto de que o pintor fizera uma brincadeira de mau gosto, que tinha estragado irremediavelmente a maravilhosa seda cujo fabrico levara tanto tempo e tinha exigido tanto cuidado, mandou prendê-lo.

O imperador estava de tal modo encolerizado, que não pregou olho naquela noite. Na escuridão, os dois traços, o azul e o amarelo, passavam e voltavam a passar diante dos seus olhos. Quando fechava as pálpebras, iam e vinham e pareciam ganhar dimensão e mover-se. Para seu grande espanto, aqueles dois traços transformavam-se em dragões a lutar. E os dragões eram rápidos e possantes. O que mais o surpreendeu, é que pareciam ter vida e mover-se, eram leves e fortes ao mesmo tempo, e aquela força, aquele poder e aquela grandeza e leveza estavam resumidas nos dois traços que o pintor tinha traçado na maravilhosa seda.

Depois de uma noite em branco e de ter admirado os dois dragões que o pintor simbolizara, o imperador decidiu ir descobrir o segredo do artista que tinha conseguido uma tal obra-prima.

De madrugada, mandou selar o cavalo e, acompanhado pela sua guarda de honra, partiu em direcção à gruta onde o pintor trabalhara muitos anos antes de pintar os dois dragões no biombo.

A tempestade dificultou-lhes o caminho; a neve, o vento e o nevoeiro obrigaram-nos a voltar atrás. Mesmo assim, o imperador ordenou que se fizessem de novo ao caminho. Ao fim de vários dias e noites de viagem, chegaram à gruta do pintor. Acenderam as tochas. Ao entrar, o imperador viu dois dragões pintados nas paredes: um era azul e o outro amarelo.

Estavam desenhados com a maior exactidão, distinguia-se cada escama, cada dente, e as narinas lançavam fogo. Cada pormenor era azul e amarelo.

Por baixo da pintura estava uma data: a do dia em que o imperador tinha pedido ao pintor para começar a pintar o mais belo biombo alguma vez visto.

Ao lado desta pintura, uma outra, a de dois dragões, um azul e outro amarelo. Ao lado desta segunda pintura, uma terceira, depois uma quarta, uma quinta, uma sexta…

Todas as paredes da gruta estavam cobertas de pinturas que representavam dois dragões, um azul, outro amarelo. Todas as imagens estavam datadas, ano após ano.

À luz das tochas, o imperador não conseguia despregar os olhos do trabalho árduo do pintor.
As imagens sucediam-se às imagens, os esboços aos esboços.

Mês após mês, o pintor ia simplificando a pintura dos dois dragões, um azul e outro amarelo. Depois de uma longa sequência de dragões, o pintor traçara finalmente nas paredes da gruta os dois traços, um azul, outro amarelo, que pintara no biombo.

Naquelas duas últimas imagens estava resumida toda a potência dos inúmeros dragões que o pintor desenhara durante muitos anos nas paredes da gruta.

O imperador reconheceu os dois dragões do biombo e deu-se conta de que as duas últimas imagens não podiam de modo nenhum comparar-se às que as precediam.

Ao olhar para as pinturas, o imperador começou por ficar admirado, depois foi ficando cada vez mais alegre, até sentir, no final, um imenso júbilo.

Depois de ter observado por uma última vez os dois traços azul e amarelo, deu ordem imediata de selar os cavalos, pois queria regressar à capital. Tinha pressa de mandar libertar o pintor para o honrar e lhe agradecer, porque este lhe tinha permitido compreender o poder e o significado dos dois traços, um azul, outro amarelo, que simbolizavam os dois dragões.

O pintor foi posto em liberdade e o imperador mandou colocar o biombo dos dois dragões na sala do trono.

Ré e Philippe Soupault
Dragon bleu — Dragon jaune
Paris, Père Castor Flamarion, 1995
Texto traduzido e adaptado

Apolina à procura de Deus

Apolina era muito curiosa. A primeira palavra que tinha pronunciado não fora “pai”, nem “bolo”, mas “porquê”. Porque é que as nuvens são brancas? E porque é que os peixes são vermelhos? Até aqui, ainda vá. Mas as perguntas mudam com a idade. Um dia perguntou quem era aquele Deus de quem tanto se falava.

— Deus é como um grande pai com uma barba branca. Mas não é um Pai Natal. Deus criou o mundo e criou-nos a nós. Deus vive no céu. É assim, minha querida — respondeu a mãe.

— Ai sim? E quando era criança onde vivia? Teve de ir à escola pelo menos a partir dos seis anos?

A mãe suspirava fundo:

— Minha querida, Deus nunca foi pequeno, sempre foi grande e bom. E, graças a Ele, nós somos grandes e bons.

— Mas nesse caso — perguntou Apolina — porque é que no domingo passado me roubaram a minha bicicleta? Hem, mamã?

A mãe de Apolina suspirou e sacudiu a cabeça.

— É verdade. Deus não impede que haja tremores de terra, nem roubos de bicicletas, nem zaragatas nos recreios. Deus não pode impedir que os homens se matem entre si, é assim. Mas agora, deixa-me trabalhar, por favor.

Era a primeira vez que Apolina ficava a sós com as suas questões. Pôs-se no canto do quarto, de mãos na cintura:

— Deus, se existes, faz aparecer imediatamente um bolo de chocolate com pedacinhos dentro. Agora mesmo! — Mas nada se mexeu. É evidente. — Vá lá, eu sou simpática… Pode ser… uma chupeta. Um chupa. Um chupa-chupa de Coca-Cola. — Fechou os olhos com muita força e abriu-os depois. — Faz lá um milagre, que eu acredito em ti!

Mas, é claro, nenhum chupa-chupa caiu do céu.

No dia seguinte, na escola, Apolina falou disto a Clara, Henrique e João.

— A minha mãe disse que Deus não existe. Eu acho que Deus é o Pai Natal — respondeu João. – Ambos têm barba branca e nunca são vistos. Só no dia de Natal é que ele desce à terra com um fato vermelho.

Clara disse-lhe:

— O meu pai disse-me que há muitos, muitos deuses! Há o deus do vento, o deus da chuva, o deus do trigo…

E Henrique disse-lhe:

— A minha mãe pensa que Deus está sempre escondido. É invisível, e para ser encontrado, é preciso ir-se longe, muito longe… ao deserto, ao céu. Ou à floresta.

Todas estas explicações pareciam sólidas, o que complicava ainda mais as coisas. Apolina preparou o saco. “O Henrique tem razão. Tudo acontece na floresta”, pensa ela. “Foi lá que o Capuchinho Vermelho encontrou o lobo; foi lá que o Caracolinho de Ouro viu os três ursos. Lá, é que eu vou encontrar Deus”. E Apolina mergulhou profundamente na floresta. Andou quilómetros e quilómetros sem encontrar nada. Encontrou, por fim, um tentilhão a saltitar alegremente.

— Bom dia, tentilhão! Ando à procura de Deus! — disse Apolina.

— Deus é a Primavera, os ninhos, os bichinhos e, acima de tudo, o sol — disse o tentilhão, batendo rapidamente as asas. — Adeus!

Apolina suspirou e abanou a cabeça. Foi mesmo uma resposta à tentilhão! Retomou corajosamente a marcha. Algumas centenas de metros adiante, um coelho cor de cinza saltou à sua frente. Apolina fez-lhe a mesma pergunta:

— Por acaso não viste Deus?

O coelho parou, alisou os bigodes com ar triste.

— Há meses atrás, ter-te-ia dito que estava aqui, longe das balas e das espingardas. Mas, no domingo passado, a minha mãe foi morta por um caçador. Então, para que serve haver um Deus, se ele permite que te matem?

— É verdade — disse Apolina. — Nós também temos tremores de terra, catástrofes, fomes… E no domingo passado, eu também fui roubada.

Mas o coelho já tinha ido embora.

O sol começava a descer e Apolina tinha fome e sede. A pergunta causava-lhe um enorme buraco na barriga. Com saudades do seu quartinho aconchegado, mas cheia de perguntas, foi então que viu… não Deus, mas um duende minúsculo com uma cabeleira azul que criava um halo na noite escura. Apolina ajoelhou-se e preparou a sua voz, porque sabia que, quando se assustam, os duendes desaparecem num abrir e fechar de olhos.

— Diz-me, duende… Eu queria ver Deus, perguntar-lhe se nos ama ou se não quer saber de nós – disse Apolina. — Sabes onde posso encontrá-lo?

— Oh, oh! — respondeu o duende na sua minúscula voz. — Lamento, minha querida menina, mas é impossível ver Deus. Sabes porquê?

— Não!

— Deus é muito tímido e esconde-se em toda a parte. Deus está no sol, em cima dos choupos, quentinho, redondo. Está no perfume das folhas, na Primavera que volta após o Inverno, na nuvem cor-de-rosa que se estende lá longe, na música, tão linda e tão triste, que te faz vir as lágrimas aos olhos. Quando gostas de alguém e quando lês um livro maravilhoso que mexe contigo, Deus está lá também. – E o pequeno duende abanou a cabeça – Não encontrarás Deus no barulho, não o encontrarás se andares a correr, se te rires espalhafatosamente, e talvez até se o procurares demasiado. Às vezes, quando fico sentado assim, de nariz ao vento, com o sol a dar-me na cara, pois bem, eu ouço e vejo Deus, mesmo com os olhos fechados.

Apolina não dizia nada, mas pensava: “Eu também.” E o duende olhou para Apolina.

— Agora, menina, volta para casa! Não é preciso analisar nem explicar tudo, se não, Deus vai-se embora tão depressa como veio. Ele não só é tímido, como detesta explicações.

Apolina despediu-se e agradeceu muito. Foi-se embora com um pouco menos de curiosidade e muita emoção na garganta,

Quando chegou a casa, sentou-se ao piano. E tocou durante muito tempo até lhe virem as lágrimas aos olhos. Era a primeira vez que lhe acontecia. Era um pequeno milagre, e muito melhor do que um chupa-chupa de Coca-Cola. Para o pardal era a Primavera, para o coelho era o silêncio.

— Para mim, Deus é a música — decretou ela.

Mais tarde, Apolina tornou-se pianista, o que, por estranho que pareça, diminuiu um pouco a sua curiosidade.

Um pouco de silêncio

Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.

Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.

O normal é ser actualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem-relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe. Se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.

Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinados – como hamsteres que se alimentam da sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.

Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.

Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de actividades frenéticas está com algum problema.

O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal-resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.

Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projectos e sonhos?

No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distracção.

O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.

Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.

Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no meu ombro de criança e disse:

— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.

E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.

Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.

Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005
Texto adaptado

Dá-me asas!

Dá-me asas!

Ontem fui para o jardim e desenhei um anjo.

— Obrigado — disse-me ele quando me preparava para lhe desenhar as asas. — Está muito bonito. Mas não me desenhes essas asas. Sabes, aquelas em que estás a pensar agora, com as grandes penas brancas.

— Porque não?

— Essas incomodam um pouco. Estão sempre a atrapalhar, a prenderem-se nos ramos, nos fios da electricidade, como sou um tanto distraído, bato com elas em todo o lado. Ah! E sujam-se imenso! Gostava de ter uma coisa nova. Pensa em algo de diferente. Dá-me asas…

Desenhei-lhe então asas de ondas de mar, depois, asas de erva e asas de vidro reluzente. Tentei também com uma fita de luz, com um raio de sol, com ramos em flor, com um turbilhão de neve e até com uma centelha de alegria. Experimentei asas de algodão, asas de vento e até mesmo asas de imaginação!

Desenhei-lhe asas de letras e asas de papel branco.

Observei-o atentamente e dei-lhe umas asas com sardas.

— Obrigado — disse o anjo quando acabou de experimentar todas as minhas asas. — Gostei muito de tudo o que me deste. Mas agora é a tua vez!

Fechei os olhos. De repente, senti que tudo estava a ficar leve. Tive a impressão de perder o meu corpo e de ficar só com os meus contornos.

— Desta vez vamos dar só um passeio pequenino — disse o anjo. — Para que em tua casa ninguém fique preocupado com a demora.

E voámos por três vezes em volta da velha nogueira do meu jardim.

Heinz Janisch
Schenk mir Flügel
St. Pölten, NP Buchverlag, 2003
Texto adaptado

As sextas-feiras de Nana

As noites de sexta-feira em casa da avó Nana começam logo de manhã cedo na cozinha. Nós comemos pão com doce de pêssego, que é o preferido dela e o meu.

Nana sorve chá, que está muito quente, e sopra para dentro da taça antiga de porcelana chinesa, fazendo ondinhas.

— Hoje não tenho escola! — digo a cantar. — Que sorte a minha!

— Hoje não tens escola! — responde. — Que sorte a MINHA!

— Agora fala-me da noite de hoje – peço.

— Vem a família toda! Vem para o Sabbath e nós temos muito que fazer!

Nana apressa-se a fazer a cama e a limpar os quartos. Eu estou encarregada de alisar as almofadas.

Nana lava as porcelanas chinesas e passa a ferro os vincos da renda da toalha de mesa. Eu dobro guardanapos com bordos de renda.

Nana inspecciona se faltam botões no seu vestido de Sabbath, azul marinho, de gola branca e punhos brancos também.

— É altura de fazer a tarte? — pergunto.

— Daqui a pouco, Jennie.

Eu puxo e volto a puxar o lustro a dois candelabros.

— Já é altura agora?

— É — diz Nana, estendendo a massa, e eu deito açúcar nas maçãs para a tarte. Em seguida, ela entrança os challah (Challah – Pão tradicional para o Sabbath e outras festas judaicas.) e mete-os no forno.

Ao meio-dia comemos sandes no parque, perto do rio. Bebemos também uma chávena de cacau.

O céu está cinzento e o vento sopra do rio, levantando-nos o cabelo, e nós dançamos para nos mantermos quentes, com os ponchos vestidos e as luvas calçadas.

Depois, andamos pela cidade de mãos dadas, à procura de flores roxas, que são as preferidas da Nana e as minhas.

— Oh, obrigada! — diz Nana.

— Obrigada — repito, saltitando pelo passeio com as flores.

Quando regressamos a casa da Nana, pomo-las numa jarra alta com água.

— É altura de nos vestirmos? — pergunto.

— Daqui a pouco, Jennie.

Mais para o fim da tarde, a casa está toda esfregada, a sopa de cevada já ferve e os challah estão a arrefecer. O frango aloura no forno e as batatas também.

— Agora já é altura?

— É — diz Nana. Nós vestimos os nossos vestidos, ambos azul-marinho. Os sapatos também são azuis. Nana põe batom nos lábios, olhando-se ao espelho.

Pomos a mesa, contamos os talheres de prata e as taças da sopa, os copos que cintilam. Nana pica o frango para ver se está tenro.

Lá fora escurece.

— Nana, olha! Neve!

A campainha da porta toca e a família precipita-se para dentro, abraçando Nana. Também me abraçam a mim, principalmente os meus pais, e eu faço cócegas ao meu irmão bebé, o Lewis, metido no fatinho de bebé.

A campainha toca de novo e entra mais família de rompante. Os tios, as tias e os primos. Toda a gente fala ao mesmo tempo, tiram os sapatos aos pontapés, atiram os sobretudos para cima das cadeiras.

No forno, a minha tarte já começa a cheirar.

— Já é altura? — pergunto.

— Agora é — diz Nana, e finalmente chega o melhor momento da noite.

Nana acende as velas e os nossos vestidos tocam um no outro; ela murmura orações de Sabbath e todos ficam em silêncio. Até o Lewis.

Daí a pouco, estamos a mastigar os challah e a passar taças de sopa, e todos falam ao mesmo tempo sentados à comprida mesa de jantar.

Lá fora, o vento uiva. A neve levanta-se em lindos rodopios brancos.

Mas aqui dentro as velas tremulam. Um cântico de Sabbath está no ar. É altura da tarte, e nós estamos todos juntos na sexta-feira da Nana.

Amy Hest
The Friday nights of Nana
Cambridge, Candlewick Press, 2001
Tradução e adaptação

Oração envergonhada 

 

Em criança, quando ia à catequese em Roanoke, na Virgínia, eu costumava fazer perguntas curiosas como «Os anjos conseguem voar no céu, mas como é que as nuvens conseguem segurar pianos?». Normalmente, obtinha do professor uma resposta confusa sobre como isso não tinha importância nenhuma. O que era importante era que Jesus tinha morrido pelos nossos pecados e que, se O aceitássemos como nosso salvador, depois da morte iría¬mos para o céu, onde teríamos tudo quanto desejássemos. Algumas crianças do meu grupo perguntavam-se como é que alguém se deixara pendurar numa cruz com pregos cravados nas mãos para ajudar o próximo; eu perguntava-me como é que o Pai Natal sabia o que eu queria para o Natal, mesmo sem nunca lhe ter escrito uma carta. Talvez tivesse um gravador escondido em todas as chaminés do Mundo.

Esta inclinação prática do espírito nunca me abandonou, e um dos resultados foi nunca ter conseguido acreditar em Deus. A maioria dos outros não-crentes que conheço parecem sentir-se libertados ou orgulhosos da sua opção, como se, por um acto de inteligência, tivessem recusado comprar banha-da-cobra. Mas, com o correr dos anos, eu comecei a sentir que me faltava algo. Os meus amigos e familiares que se apoiam em Deus – os verdadeiros crentes, não os que se limitam a ir à igreja – têm um espírito mais aberto. Quando caminham ao longo de um ribeiro, não vêem apenas água a fluir sobre rochas, ficam extasiados com essa imagem. Antevêem um reino de esperança para além deste mundo. Eu não vejo mais do que um regato rumorejante. Não capto a mensagem.

O John, meu marido, que foi criado numa família católica praticante e ajudou à missa, tem também os pés bem assentes nesta terra. Por isso, e fora termos baptizado o nosso filho para contentar as famílias, deixámos a fé de parte. Eu supus que tínhamos ambientado o nosso filho de 4 anos, Luke, ao terreno espiritual árido em que vivíamos. Quando o meu marido foi para o Iraque por um período de alguns meses, pensei que eu e o Luke estávamos no mesmo barco, eu uma mãe subitamente só, ele um rapaz nervoso cujo pai estava em zona de guerra. Quando falei com o John ao telefone pela primeira vez, estava trémula de angústia; mas o Luke permanecia tagarela e calmo. Sentia a falta do pai, mas não estava assustado. Quis ver fotografias do pai empunhando uma AK-47. Concluí que era demasiado novo para compreender.

Uma noite, estávamos os dois a ver televisão e de repente começou a passar uma história de um soldado que regressara a casa em licença de casamento. Tentei mudar de canal, mas o Luke queria ver, por isso deixei, pensando: «É só um casamento. Não há problema.» Mas o soldado começou a falar do medo que sentia de voltar para lá, de como a situação era perigosa no Iraque. Pelo canto do olho, vi o Luke unir as mãos e inclinar a cabeça durante uma fracção de segundo. Surpreendida, disse-lhe: «O que é que estás a fazer, meu querido?» Não respondeu, mas pouco depois repetiu o gesto. Admirada, disse-lhe: «Não és obrigado a contar-me, mas, se quiseres, sou toda ouvidos.»

Ele acabou por confessar: «Estava a rezar uma pequena oração pelo pai.» «Isso é maravilhoso, Luke», murmurei, embaraçada com a ideia de que nós ou o nosso mundo moderno tivéssemos de algum modo feito com que o Luke se sentisse envergonhado por rezar pelo pai na sua própria casa. Foi como se a semente da fé tivesse germinado no nosso pequeno filho e ele estivesse agora a mostrar que podia mover montanhas. Não numa igreja ou a observar as estrelas, mas enquanto percorríamos os canais de televisão. Tive inveja dele. O Luke não estava preocupado porque acreditava que Deus lhe havia de devolver o pai são e salvo. Só eu estava atormentada.

Para uns, a fé é uma dádiva; para outros, é uma escolha, uma questão de disciplina espiritual. Tenho um amigo que foi educado na fé e que crê. Mas a fé tem vacilações: teve de lutar para mantê-la e transmiti-la aos filhos. Outra amiga minha nunca vai à igreja porque é mãe solteira e não tem dinheiro para a gasolina. Mas um dia contou-me que estava a lavar laranjas e que o sol se reflectia nelas. Descascou uma, o cheiro subiu-lhe ao rosto e foi como se tivesse recebido o Espírito Santo. «Entranhou-se-me até aos ossos. Ergui as mãos ao céu e senti-me cheia de amor.»

Não sendo teóloga, nem sequer crente, não me acho na posição de propor teorias, mas a minha é esta: as pessoas que recebem a fé directamente, como uma combustão espontânea da alma, têm menos dúvidas. Foram incendiadas por uma fé mais inabalável do que aquelas a quem a fé foi ensinada.

Depois de ter visto o Luke a rezar pelo pai, ausente no Iraque» perguntei-lhe quando tinha começado a acreditar em Deus. «Não sei», respondeu-me. «Sempre soube que Ele existe.»

O meu marido regressou são e salvo do Iraque em Outubro de 2003, mas se algo lhe tivesse acontecido, o Luke teria sabido que o pai estava no céu à nossa espera. Não sofre de um vazio como aquele pai angustiado do Evangelho segundo S. Marcos: “Jesus disse-lhe: Tu não crês, mas tudo é possível para aquele que crê.” E o pai da criança soltou um grito e disse por entre lágrimas: “Senhor, eu creio; ajuda-me tu a crer ainda mais.”

Para o nosso filho Luke, todas as coisas são possíveis. No fim da vida, juntar-se-á no céu aos seus heróis e aos seus entes queridos, a mãe e o pai, o fundador do país, os avós e os super-heróis. As orações do Luke podem estender-se ao infinito e mais além, mas eu sei que estou limitada a uma: «Senhor, ajuda-me a crer.»

Dana Tierney

Selecções do Reader’s Digest
Lisboa, Outubro 2004